O imbrochável, brochou

O presidente Jair Bolsonaro, que se autodeclarou imbrochável, brochou com a derrota nas urnas para o ex-presidente Lula, e lamentavelmente, continua brochando diante de uma nação que esperava um pouco mais de civilidade, daquele que ainda é o presidente do Brasil, e, portanto, deveria se comportar como um estadista. Sua atitude de silenciar-se, de forma irresponsável, fez com que eclodissem inúmeros protestos por todo o país, promovido por seus eleitores que não admitem que vivemos em uma democracia e que a maioria do povo brasileiro não quis que Bolsonaro fosse reeleito. Bem como boa parte do eleitorado também não quis nenhum dos dois candidatos. Tanto que dos 156.454.011 eleitores aptos a votar, 37.901.001 milhões de eleitores não quiseram nem Lula, nem Bolsonaro. Esse expressivo número de eleitores simplesmente não foram votar, ou se foram, optaram por votar em branco ou nulo.

Vexatório

O comportamento do presidente Bolsonaro, diante da derrota, é no mínimo vexatório. Age feito um menino birrento e inconsequente. Que não sabe a hora de parar de fazer gracinha, enquanto milhares de radicais tomam as ruas, movidos pela desinformação e de posse de um autoritarismo descomunal, que não cabe em um país democrático, com uma diversidade populacional gigantesca e de dimensão continental como é o Brasil. Um país de todas as cores, raças, credos, orientações sexuais e políticas. Que muitas vezes não agrada nem a gregos nem troianos, mas que faz desse povo um só povo. Que se junta para ajudar o próximo quando ele precisa. Que se comove com o sofrimento daqueles que são atingidos por catástrofes de todo tipo, como as inúmeras enchentes, vividas inclusive por Angra, que recebe donativos de toda a parte do Brasil, e que também envia ajuda a outras cidades, quando vê um pai de família chorando por ter perdido a sua casa e muitas vezes a sua família, nas tragédias da vida real. Esse é o meu Brasil, que divide o pouco que tem na dispensa com o vizinho quando ele não tem o que comer. Não esse Brasil, briguento. Do nós contra eles. Do verde e amarelo contra o vermelho. O meu Brasil é muito maior que esses dois homens que concorreram ao cargo de presidente da república. Um emprego que tem um contrato trabalhista de 4 anos. Que se não atender as demandas para o qual foi contratado, o eleito deve ser demitido pela maioria do povo via voto direto. Nas urnas. Como manda a democracia. E não no grito, como os bolsonaristas estão fazendo.

Falta respeito ao outro

Esse Brasil, que os bolsonaristas estão exibindo nas ruas eu não quero. Nem pra mim nem para as próximas gerações. Um Brasil que não respeita o ir e vir das pessoas. Que impede a circulação de todos os tipos de insumos. Que agride quem não compactua com o pensamento do tiro, porrada e bomba. Que não pensa nas consequências desses atos na economia do país, que sofre com as altas dos preços devido a pandemia e a crise internacional. Que vai para a Basílica de Nossa Senhora Aparecida com bebida alcoólica para brigar num lugar de paz e oração. Esse não é o meu Brasil. Aliás, o vice-presidente general Hamilton Mourão, que acaba de se eleger senador, disse uma grande verdade –‘Nós concordamos em participar do jogo, agora não adianta mais chorar’.

Somos pecadores

O homem é o habitat do pecado e no meio político nunca conheci nenhum que pelo menos se assemelhasse a um santo. Tanto Lula quanto Bolsonaro tem seus defeitos e muitas coisas para explicar ainda ao povo brasileiro. Todos nós sabemos que a corrupção correu solta no governo Lula, que não foi inocentado, apenas foi beneficiado por manobras jurídicas. Embora, aparentemente em menor proporção, a família Bolsonaro também se beneficiou de manobras jurídicas para abafar o inquérito das rachadinhas, envolvendo o hoje senador Flávio Bolsonaro. Bem como a compra da atual mansão em que mora em Brasília também foi mal contada, assim como a compra da mansão de sua ex-madrasta, também em Brasília, tem ares de falcatrua. O próprio presidente já disse, para quem quis ouvir é claro, que usou o dinheiro do auxílio moradia para pagar prestação da compra de um apartamento, que usava ‘para comer gente’, quando tinha direito a morar gratuitamente num dos inúmeros apartamentos funcionais ao qual todo deputado federal tem direito. A briga judicial pela posse da Ilha Comprida em Angra é outra história muito mal contada, que mais uma vez envolve o senador Flávio e que tramita na Justiça do Rio. As eleições acabaram, mas ainda tem muita água suja para correr ladeira abaixo.

Briguem por Angra

Parem de brigar por um quadro eleitoral que já está mais que definido. Se querem protestar, briguem por remédio e médicos nos postos de saúde. Por professor de qualidade educando de verdade as nossas crianças. Briguem por mais empregos e não por auxílio esmola governamental. Lutem por água, esgoto, segurança pública, obras públicas sem superfaturamento. Por fomento à cultura, sem a necessidade de dividir o lucro das tendas contratadas para os shows que não aconteceram, como o do Jota Quest. Briguem pelo seu quintal.

CNN Portugal

Briguem para que o dinheiro público realmente sirva ao público. A coletividade. Olhem para Angra com a mesma sensibilidade que o jornalista português Pedro Bello Moraes, da CNN Portugal enxergou e viu na nossa cidade. Um município onde a desigualdade social mantem mais de 50% da população entre a pobreza e a extrema pobreza, sufocados nos morros e subúrbios, sem perspectiva de um bom emprego e bem longe dos olhos dos ricos. Que vivem em busca de uma oportunidade para se livrar do tal Q.I (quem indica) para conseguir uma simples vaga de varredor de rua. Que se submetem a rachar o salário parlamentar com o vereador e ainda pagar mais um outro para servir de cabo eleitoral, só para ter o que por o que comer na mesa de seus filhos. Angra precisa mudar e se o morador quiser brigar por alguém, comece brigando por onde vocês moram, depois briguem por quem tá nadando de braçada numa mansão em Brasília ou na Barra da Tijuca, e daqui a pouco nem lembra que você existe. Aliás, o nosso prefeito não atendeu ao jornalista português, provavelmente para não ser reconhecido na terrinha, onde o alcaide teria adquirido um belíssimo imóvel na beira da praia na cobiçada Cascais para passar as temporadas de verão ou até mesmo, curtir a futura aposentadoria. Realmente ficaria feio seus vizinhos portugueses o reconhecerem como o prefeito que administrou tanta desigualdade por quatro mandatos consecutivos (matéria nesta edição).