O Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ)
recebeu uma representação para investigar o Termo de Dispensa de Licitação 013/2026
da Secretaria Municipal de Saúde de Angra dos Reis. A denúncia foca na suspeita
de "emergência fabricada", termo jurídico utilizado quando a urgência
de uma contratação é gerada pela omissão ou falta de planejamento da própria
gestão, proposital ou não. O contrato, de aproximadamente R$ 45 milhões, visa a
compra direta de insumos hospitalares sem o devido processo licitatório.
A representação aponta que a prefeitura não demonstrou a
calamidade pública necessária para justificar a urgência, conforme exige a Lei
nº 14.133/2021. De acordo com o documento, há indícios de que o
desabastecimento poderia ter sido evitado com a abertura tempestiva de
licitações regulares. A ausência de estudos técnicos e estimativas de preços no
processo administrativo reforça a tese de que a via emergencial foi utilizada
de forma indevida para contornar a burocracia comum, bem como não houve a
devida publicidade para uma compra num valor como esse.
A jurisprudência do Tribunal de Contas da União (TCU)
estabelece que a dispensa de licitação só é válida diante de emergências reais,
concretas e iminentes. Se ficar comprovado que a Secretaria de Saúde sabia da
proximidade do fim dos estoques e não agiu, o Ministério Público pode
caracterizar a desídia administrativa. Nesses casos, embora a compra seja
mantida para não prejudicar o atendimento à população, os gestores públicos
podem ser punidos pessoalmente com multas e processos por improbidade.
O elevado montante de R$ 44,9 milhões atrai fiscalização
automática dos órgãos de controle, que agora exigem a requisição integral do
processo administrativo. Entre os pedidos formulados ao tribunal, estão a
análise da economicidade da despesa e a verificação de possível sobrepreço.
Caso as irregularidades sejam confirmadas, o TCE-RJ poderá determinar a
suspensão de pagamentos e a responsabilização do Secretário de Saúde e do
Prefeito pelo ressarcimento aos cofres públicos.