A sede da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan), no bairro do Flamengo, Zona Sul carioca, foi palco na última terça-feira, dia 14 de julho, do lançamento da Agenda Nuclear para um Brasil Competitivo. O documento, fruto do trabalho de especialistas e representantes da indústria, delineia propostas consideradas prioritárias para o próximo ciclo de governo, visando inserir a tecnologia nuclear como pilar fundamental no desenvolvimento econômico, segurança energética, inovação e competitividade do país.
O evento, promovido pela Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN), reuniu uma expressiva comitiva de políticos, empresários, pesquisadores e especialistas do setor. Em pauta, o crescente aumento da demanda global por energia firme, impulsionado pela expansão da inteligência artificial, dos data centers e das urgentes metas de descarbonização.
O presidente da Firjan, Luiz Césio Caetano, destacou a relevância da agenda nuclear para o futuro econômico nacional, com especial atenção ao Rio de Janeiro e ao fortalecimento do parque industrial brasileiro. “O avanço do Brasil neste campo representa soberania, inovação e geração de oportunidades. Ao mesmo tempo, oferece uma contribuição estratégica para áreas de grande relevância, como saúde, indústria, agricultura e pesquisa científica”, afirmou Caetano. Ele também ressaltou que a conclusão de Angra 3 é sinônimo de “desenvolvimento tecnológico, fortalecimento da indústria nacional, geração de empregos qualificados, impulso à inovação e aumento da competitividade do país”, e que a usina geraria um impacto significativo na economia fluminense, “fortalecendo todo o complexo nuclear e uma cadeia produtiva que reúne mais de 700 empresas e cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos”. Caetano ainda frisou a importância de sensibilizar candidatos em ano eleitoral sobre o setor.
Celso Cunha, presidente da ABDAN, reforçou que a proposta visa apresentar um conjunto de ações objetivas e viáveis para acelerar o desenvolvimento do setor. “Construímos uma agenda focada em prioridades que podem ser executadas. O objetivo foi identificar ações que contribuam para transformar o potencial já existente em resultados para o país. O Brasil possui ativos estratégicos, conhecimento técnico e uma indústria preparada para avançar”, disse Cunha.
Reator Multipropósito Brasileiro em Destaque
Um dos temas que mais mobilizou o debate foi o Reator Multipropósito Brasileiro (RMB), projeto estratégico para ampliar a produção de radioisótopos essenciais em diagnósticos e tratamentos médicos. Sibila Grallert, vice-presidente e Diretora Geral da CMR Brasil, alertou para a dependência brasileira da importação de radioisótopos e como o atraso na conclusão do RMB afeta a autonomia nacional. “O país possui conhecimento técnico acumulado e instituições capacitadas. O desafio é garantir continuidade de investimentos e governança para transformar essa capacidade em benefício direto para a população”, afirmou.
A discussão ganhou contornos políticos com a participação de deputados federais:
- O deputado Daniel Soranz (PSD-RJ) defendeu a inclusão do RMB na atual agenda eleitoral, propondo inclusive a transferência do empreendimento para o Rio de Janeiro caso São Paulo não consiga concluí-lo. “Precisamos colocar esse tema nas agendas estratégicas do país. O Reator Multipropósito Brasileiro deve ser tratado como prioridade nacional e fazer parte dos compromissos assumidos pelos próximos governos”, comentou Soranz, destacando a medicina nuclear como um “dos maiores ativos para o diagnóstico e tratamento do câncer”, que “salva vidas e precisa ser tratada como uma política estratégica de Estado.”
- O deputado Julio Lopes (PP-RJ), presidente da Frente Parlamentar da Tecnologia e Atividades Nucleares, reforçou a necessidade de conclusão de Angra 3 e a ampliação da participação da energia nuclear na matriz elétrica. “Angra 3 é uma obra vital para a economia do Rio de Janeiro e para o Brasil. Estudos mostram que cada real investido no empreendimento gera múltiplos impactos econômicos ao longo da cadeia produtiva”, afirmou Lopes, que ainda relacionou o avanço da energia nuclear ao crescimento dos data centers e da inteligência artificial: “Se o Brasil pretende ampliar sua participação na economia digital global, precisará de muito mais energia firme. E a energia nuclear é uma das fontes mais eficientes para atender essa demanda.”
- O deputado Reimont (PT-RJ) sublinhou a importância do Rio de Janeiro, que “concentra uma parcela importante da infraestrutura nacional de pesquisa, inovação e formação de talentos. Fortalecer o setor nuclear significa fortalecer também a capacidade de desenvolvimento do estado e do país.”
A ABDAN informou que a Agenda Nuclear para um Brasil Competitivo é apenas o primeiro de uma série de encontros que serão realizados ao longo do ano. O objetivo é aprofundar o debate sobre temas cruciais como energia, medicina nuclear, cadeia produtiva, inovação, formação de profissionais, segurança energética e competitividade industrial, consolidando o futuro nuclear do Brasil.