O futuro da Usina Nuclear Angra 3, um projeto que se arrasta por décadas e acumula cifras bilionárias, ganhou um novo capítulo nesta terça-feira (14). O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) reconheceu o interesse público no pedido da Eletronuclear para suspender temporariamente os pagamentos das dívidas relacionadas à sua construção. A medida visa proporcionar um alívio financeiro à estatal enquanto o governo federal decide sobre a retomada ou o abandono definitivo da obra, paralisada desde 2015 em meio à Operação Lava Jato.
A solicitação foi encaminhada ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e à Caixa Econômica Federal, instituições que agora terão a responsabilidade de analisar o pleito. A decisão dependerá de suas regras internas e da legislação aplicável a operações de crédito e garantias de financiamentos.
O Ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, defende veementemente a conclusão de Angra 3. Em suas declarações, o ministro argumentou que abandonar o projeto significaria uma perda irrecuperável dos recursos já investidos. "É muito mais importante terminar Angra 3 do que enterrar os investimentos já feitos", afirmou, reforçando a estratégia de reestruturação financeira e administrativa da Eletronuclear como passo prévio à definição do futuro do empreendimento.
A complexidade da decisão é evidenciada pelos custos envolvidos. Uma estimativa do BNDES, apresentada em 2025, aponta que o investimento necessário para concluir Angra 3 seria de cerca de R$ 24 bilhões. Contudo, o cenário de abandono não é menos oneroso, podendo custar até R$ 26 bilhões, considerando despesas como multas, encerramento de contratos e desmobilização de toda a estrutura.
Silveira também fez críticas à gestão anterior, mencionando a aquisição de equipamentos e a realização de concurso público direcionado à obra antes de uma decisão formal do CNPE sobre a continuidade da usina, o que, segundo ele, gerou despesas sem um plano claro.
Na mesma reunião, o CNPE tomou outra decisão relevante para o setor nuclear. Foi aprovada uma resolução que determina a elaboração periódica de estudos para comparar os preços do combustível nuclear praticados no Brasil com os valores do mercado internacional. Esses levantamentos, coordenados pela Empresa Brasileira de Participações em Energia Nuclear e Binacional (ENBPar), deverão cobrir todas as etapas do ciclo do combustível e resultarão em relatórios técnicos a serem publicados a cada cinco anos.
A iniciativa busca maior transparência na formação dos custos e, caso sejam identificadas discrepâncias significativas em relação aos parâmetros internacionais, a ENBPar será encarregada de apresentar justificativas técnicas e planos para alinhar os preços brasileiros às referências externas, garantindo mais competitividade e eficiência ao setor.