A chegada da primavera, que marca oficialmente seu início nesta terça-feira (22), às 21h05 no Horário de Brasília, costuma reacender a busca pelo corpo ideal para o verão. Conhecido popularmente como “Projeto Verão”, esse período é marcado por uma tentativa acelerada de perder gordura e alcançar resultados estéticos em poucos meses, mas um especialista alerta para os riscos de focar apenas na rapidez.
Para o profissional de Educação Física e especialista em fisiologia do exercício, Jauan Anselmo, o grande problema reside em transformar o calendário em um prazo final para o corpo. Segundo ele, a pressa leva a erros comuns como o aumento excessivo do volume de treinamento, restrições calóricas drásticas e a ausência de uma progressão planejada. Estratégias como essas podem até gerar mudanças iniciais, mas são dificilmente sustentáveis a longo prazo.
“O problema do Projeto Verão não é querer chegar à estação em uma condição melhor e sim acreditar que precisamos acelerar tudo porque temos uma data marcada. O corpo precisa de adaptação, progressão e recuperação, e quando a pessoa tenta compensar em algumas semanas o que não fez durante meses, ela aumenta a chance de exagerar no treino, restringir demais a alimentação e abandonar o processo quando não consegue sustentar aquela rotina”, explica Anselmo.
A ciência corrobora a importância de uma abordagem sustentável. Em março deste ano, o American College of Sports Medicine (ACSM) atualizou suas recomendações para treinamento resistido, com base em 137 revisões sistemáticas e mais de 30 mil participantes. O documento reforça a necessidade de consistência e mostra que métodos complexos de treinamento não são necessariamente superiores para adultos saudáveis.
Jauan Anselmo enfatiza que este princípio vale tanto para quem busca hipertrofia quanto para quem almeja emagrecer, indicando que o “Projeto Verão” muitas vezes falha justamente por ter uma data de validade. “Não existe transformação consistente sem repetição, já que você precisa de um estímulo que consiga executar hoje, recuperar amanhã e repetir na semana seguinte. É isso que permite aumentar gradualmente a carga, melhorar a capacidade física e construir resultados. O treino precisa ser o adequado e progressivo”, afirma.
A busca por resultados rápidos também pode fazer com que iniciantes ignorem a etapa fundamental de adaptação do organismo ao exercício. Após períodos de menor atividade, aumentar subitamente a frequência, volume ou intensidade pode sobrecarregar músculos e articulações que ainda não estão preparados para tal estímulo.
Emagrecimento sem data de validade
Pensando nessa lógica, Jauan Anselmo desenvolveu o Projeto Seca Sempre, uma metodologia que nasceu de mais de 10 anos de experiência como personal trainer. O objetivo é auxiliar pessoas a emagrecerem com maior constância, sem a imposição de um prazo final delimitado.
A proposta central é construir o processo de emagrecimento a partir de um treinamento estruturado, progressão e aderência, em vez de estratégias extremas que funcionam apenas por algumas semanas. “Eu prefiro que a pessoa pense: ‘como eu quero estar treinando daqui a seis meses?’ e não apenas ‘quanto eu consigo emagrecer até dezembro?’. Quando existe uma data de validade para o projeto, existe também o risco de a pessoa achar que, depois daquela data, pode parar. O objetivo precisa ser construir uma rotina que continue fazendo sentido depois”, destaca o profissional.
Primavera também mexe com o relógio biológico
A mudança de estação vai além da temperatura e da duração do dia, influenciando também a regulação do sistema circadiano, responsável por organizar ciclos como sono e vigília. Estudos de cronobiologia indicam que alterações na exposição à luz e na duração do período claro podem afetar mecanismos relacionados à melatonina.
Pesquisas publicadas no Journal of Biological Rhythms também investigaram a relação entre luz, exercício e o funcionamento do relógio circadiano. Um estudo experimental mostrou que tanto a exposição intensa à luz quanto a atividade física podem produzir alterações na fase do relógio biológico, embora os efeitos dependam do horário e das condições da exposição.
Uma revisão publicada em Sleep Medicine Reviews em 2025 encontrou associação entre realinhamento circadiano e melhora do humor em determinados grupos, enquanto outras revisões sobre exercício mostram que o horário da atividade pode influenciar marcadores circadianos. Este período pode ser uma oportunidade para ajustar horários de treino, especialmente para quem passou o inverno com uma rotina mais sedentária.
“A mudança de estação pode funcionar como um gatilho comportamental positivo. Se a pessoa percebe que está com mais disposição e quer voltar a se movimentar, ótimo. Mas esse primeiro impulso precisa ser transformado em hábito. O objetivo é aproveitar a motivação da primavera para construir uma rotina que permaneça quando chegar o verão e também depois dele”, conclui Jauan Anselmo.