A 24ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) encerrou suas atividades com um balanço impressionante, consolidando-se como um marco de resiliência e sucesso. Entre os dias 22 e 26 de julho, cerca de 40 mil pessoas circularam pelo Centro Histórico da charmosa cidade fluminense, representando um notável crescimento de 14% em relação à edição anterior.
O feito é ainda mais significativo considerando o contexto de restrição orçamentária. A Flip 2026 operou com um orçamento privado reduzido, passando de R$ 10,1 milhões em 2025 para R$ 5,25 milhões neste ano. Apesar da diminuição dos recursos, que ainda demandam captação complementar, a ocupação cultural das ruas de Paraty foi intensa, com a estrutura do evento se expandindo para além do programa oficial. O número de Casas Parceiras, por exemplo, saltou de 35 para 46, oferecendo uma vasta programação gratuita que descentralizou os debates e atraiu um público diversificado.
A curadoria do evento foi elogiada por criar um ambiente de diálogo rico, misturando autores consagrados com vozes emergentes do cenário editorial brasileiro. Nomes de peso como Conceição Evaristo, Itamar Vieira Junior, Milton Hatoum e a ministra Cármen Lúcia protagonizaram mesas que abordaram desde a política nacional até complexas estéticas literárias.
O ponto central desta edição foi a emocionante homenagem à poeta Orides Fontela (1940-1998). A escolha da autora, cuja obra permaneceu à margem do grande público por décadas, serviu como um fio condutor para discussões cruciais sobre o apagamento histórico de vozes femininas na literatura. Debates sobre a invisibilidade, que marcaram a trajetória de Fontela, dialogaram diretamente com a proposta curatorial de explorar a “instabilidade da palavra” e resgatar a memória poética.
A programação internacional também brilhou pela amplitude geográfica e pela relevância dos temas abordados. A Flip 2026 trouxe nomes como a inglesa Zadie Smith, o argelino Kamel Daoud e a mauriciana Nathacha Appanah. Um dos momentos de maior repercussão pública foi a presença da ativista Angela Davis, em evento realizado no Sesc Caborê, que atraiu olhares para questões de justiça social e direitos humanos. A diversidade de origens dos convidados, incluindo autores de países como Congo, Argentina, Guatemala e Alemanha, refletiu um engajamento profundo com o momento político global e as experiências diaspóricas.
Ao conectar a realidade local de Paraty com os grandes dilemas da contemporaneidade e ao atravessar fronteiras físicas e políticas, a Flip reafirmou seu papel essencial como um dos principais palcos de reflexão intelectual na América Latina, provando que a cultura e a literatura podem florescer mesmo diante de desafios.