A Eletronuclear vive um cenário contraditório: enquanto suas
usinas em Angra dos Reis alcançam indicadores de produtividade e segurança
comparáveis aos melhores do mundo, a companhia enfrenta grave crise de caixa e
aguarda a decisão do governo sobre a retomada das obras de Angra 3, paralisadas
há décadas.
No plano operacional, os resultados são expressivos. Em
2024, Angra 1 permaneceu conectada ao Sistema Interligado Nacional por 349
dias, o equivalente a 95,6% do ano, com taxa de disponibilidade de 94,72% — o
terceiro melhor desempenho de sua história. O resultado, somado a medidas
adotadas pela empresa, garantiu a renovação da vida útil da usina até 2044. Já
Angra 2 atingiu em 2025 um recorde histórico de geração, com 99,87% de
disponibilidade, nenhuma perda forçada e seis ciclos consecutivos sem paradas SCRAM,
nome técnico para o desligamento de emergência de um reator. Juntas, as duas
unidades geraram 15,8 milhões de MWh em 2025, a quarta maior marca da história
da central, operando com equipes reduzidas e sob os padrões internacionais da
Associação Mundial de Operadores Nucleares (WANO) e da Agência Internacional de
Energia Atômica (AIEA).
Esse desempenho, porém, contrasta com os problemas de gestão
e governança que pressionam a saúde financeira da estatal. O alto endividamento
para tentar concluir Angra 3, somado às sucessivas revisões de cronograma e ao
aumento dos custos, drenou a capacidade de investimento próprio da empresa. A
situação é agravada por tarifas defasadas, forte pressão regulatória e
limitações severas de caixa, o que torna a modernização de equipamentos
dependente de empréstimos e aportes públicos.
O principal drama da companhia é Angra 3. No fim de julho, o
Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) reconheceu o interesse público
no pedido da Eletronuclear para que o Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social (BNDES) e a Caixa Econômica Federal participem da retomada
do projeto. Hoje, o passivo com a Caixa gira em torno de R$ 2,9 bilhões,
enquanto a dívida com o BNDES soma aproximadamente R$ 3,5 bilhões. Sem gerar
receita, a obra inacabada exige quantias bilionárias apenas para ser preservada.
Os aportes de R$ 3,5 bilhões da ENBPar, holding que controla a estatal, foram
esgotados em setembro de 2024, o que obrigou a Eletronuclear a usar cerca de R$
900 milhões do caixa operacional de Angra 1 e 2 até outubro de 2025 para
sustentar o projeto. No setor, também há críticas a problemas estruturais, como
o contingente de cerca de 500 funcionários fora das usinas e o elevado custo
administrativo.
Mesmo com recordes de produção, o aumento da geração não se
traduz em margem financeira proporcional. Especialistas apontam a renegociação
do modelo de comercialização de energia como um dos caminhos. Para 2026, a
receita tarifária estimada para Angra 1 e 2 é de cerca de R$ 4,8 bilhões, alta
de 17,09%, incluindo a correção de erro material da revisão anterior, com
efeito de aproximadamente R$ 140 milhões no caixa. A defasagem tarifária, no
entanto, já gerou déficits expressivos no balanço da empresa: um rombo de cerca
de R$ 500 milhões em 2022 e de R$ 700 milhões em 2023.
O futuro da Eletronuclear depende, em grande medida, da
definição do governo sobre Angra 3 e da reestruturação financeira da estatal.
Enquanto a decisão não sai, a companhia segue operando suas usinas em alto
padrão técnico, mas convivendo com o peso de uma dívida que cresce a cada ano
de paralisação do projeto.