A Eletronuclear, responsável pela operação da Central Nuclear de Angra dos Reis, vive um paradoxo que desafia a lógica. De um lado, suas usinas exibem um desempenho operacional de elite global, com indicadores de produtividade, segurança e confiabilidade técnica que enchem de orgulho a engenharia brasileira. Do outro, a companhia enfrenta uma grave crise de caixa, endividamento bilionário e a espera interminável pela conclusão da usina de Angra 3, um projeto que se arrasta há décadas.
A situação é ainda mais crítica no cenário político atual. Com as eleições de outubro se aproximando, decisões cruciais para o setor energético, especialmente sobre o futuro de Angra 3, foram postergadas para depois do pleito, ou, no pior cenário, apenas para 2027, ampliando o drama financeiro da estatal.
Recordes de Geração e Segurança em Angra 1 e 2
As unidades Angra 1 e Angra 2 são exemplos de eficiência. Em 2024, Angra 1 permaneceu sincronizada ao Sistema Interligado Nacional por 349 dias, correspondendo a 95,6% do ano, com uma taxa de disponibilidade impressionante de 94,72%, o terceiro melhor desempenho de sua história. Esses resultados foram cruciais para a renovação de sua vida útil até 2044.
Angra 2 não ficou para trás. Em 2025, a usina alcançou um recorde histórico de geração com 99,87% de disponibilidade, perda forçada zero e seis ciclos consecutivos sem paradas SCRAM (desligamento de emergência). Em conjunto, a central gerou 15,8 milhões de MWh em 2025, a quarta maior marca de sua história, operando com equipes enxutas e em conformidade com os mais rigorosos padrões internacionais de segurança da Associação Mundial de Operadores Nucleares (WANO) e da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Angra 3: O Calcanhar de Aquiles Financeiro
Apesar do brilho operacional, a saúde financeira da Eletronuclear é gravemente comprometida pela novela de Angra 3. O empreendimento inacabado exige quantias bilionárias apenas para sua preservação e manutenção, sem gerar um centavo de receita. A dívida da empresa com a Caixa Econômica Federal gira em torno de R$ 2,9 bilhões, enquanto o passivo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) soma aproximadamente R$ 3,5 bilhões.
Os aportes de R$ 3,5 bilhões da ENBPar, destinados ao projeto, esgotaram-se em setembro de 2024. Desde então, a Eletronuclear foi forçada a drenar cerca de R$ 900 milhões do caixa operacional de Angra 1 e 2 até outubro de 2025 para sustentar Angra 3, comprometendo sua capacidade de investimento próprio e modernização de equipamentos.
Desafios de Gestão e Modelo Regulatório
Além da dívida de Angra 3, a Eletronuclear enfrenta problemas estruturais de gestão e um modelo regulatório desfavorável. Especialistas do setor apontam:
- Contingente Administrativo Elevado: Cerca de 500 empregados fora das usinas contribuem para custos administrativos que são considerados altos.
- Tarifas Defasadas: O modelo tarifário impõe um teto que impede o ganho de escala. Mesmo com recordes de produção, o incremento de geração não se reflete em um aumento proporcional da margem financeira.
- Descasamento de Custos: Os custos reais operacionais (PMSO) superam sistematicamente o que é reconhecido pelo mecanismo regulatório, gerando déficits expressivos de aproximadamente R$ 500 milhões em 2022 e R$ 700 milhões em 2023.
Em um sinal de reconhecimento da gravidade da situação, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) reconheceu, no final de julho, o interesse público no pedido da Eletronuclear para que BNDES e Caixa avaliem a viabilidade de suspender temporariamente os pagamentos das dívidas do projeto.
Para 2026, a receita tarifária estimada para Angra 1 e 2 é de cerca de R$ 4,8 bilhões, uma alta de 17,09%, incluindo correção de erro material. Contudo, a renegociação do modelo de comercialização de energia e a busca por soluções para Angra 3 são cruciais para tirar a Eletronuclear do sufoco financeiro e permitir que sua excelência operacional se traduza em sustentabilidade econômica.