A Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro pediu ao Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) que mantenha a cassação do prefeito de Angra dos Reis, Cláudio Ferreti, e a inelegibilidade do ex-prefeito Fernando Jordão — o homem que, segundo os autos, comandou a engrenagem que elegeu o próprio secretário de Governo à custa da destruição da reputação de um adversário.
O parecer, assinado em 2 de setembro promotora Maria Helena C. N. de Paula descreve como uma operação que envergonha a política: ex-empregados aliciados e pagos em espécie para gravar vídeos difamatórios contra o candidato Renato Araújo, com a bênção do núcleo do poder municipal. E o rosto dessa história não é apenas o de um condenado: é o de um candidato a deputado federal.

O retrato que emerge dos autos é o de um prefeito que não se
contentou em disputar a sucessão — tratou de fabricá-la. Fernando Antônio
Ceciliano Jordão, então no comando da prefeitura, usou a influência do cargo e
as relações do palácio para pavimentar a candidatura de Cláudio de Lima Sírio,
o Ferreti, seu secretário de Governo. A coligação "Angra para Todos"
(PL/NOVO) denunciou uma estrutura organizada de produção de conteúdo negativo:
ex-funcionários de empresas ligadas ao adversário foram identificados, convencidos
e remunerados para gravar declarações depreciativas que circulariam em grupos
de WhatsApp às vésperas da eleição.
O que torna o caso especialmente grave é a promiscuidade
entre a máquina pública e a campanha. Gabriela Athias, sócia-administradora da
SOMMA Serviços de Comunicação Ltda. — empresa contratada pela própria
prefeitura de Jordão para comunicação institucional — participava diretamente
das gravações, orientava os depoimentos e cuidava da edição e divulgação do
material. A perícia nos celulares expôs a divisão de tarefas e revelou diálogos
que amarram a operação ao gabinete: a secretária do irmão do prefeito avisava
que o contato seria feito "a pedido do Fernando Jordão". Não há como
chamar isso de outra coisa senão o poder público posto a serviço de uma
campanha suja.
Os depoimentos colhidos após a prisão de Fabrício Davy, em
agosto de 2024, escancaram a frieza com que o esquema operava. Um dos
aliciadores admitiu ter feito "um jogo de cintura do caramba pra conseguir
convencer a galera" a participar. Outro, diante do material gravado,
comemorou: "já dá pra fazer um estrago". O "estrago" tinha
endereço, data e alvo: a candidatura de Renato Araújo na disputa de 2024. Para
isso, havia dinheiro — R$ 7 mil repassados em espécie para distribuição entre
os participantes, R$ 500 pagos a um dos envolvidos após as filmagens.
Comprava-se a fala de quem trabalhava para o adversário como quem compra um
produto.
A primeira instância não titubeou: cassou os diplomas de
Ferreti e do vice Rubens Rocha, beneficiários diretos do esquema, e declarou
Jordão e Gabriela Athias inelegíveis por oito anos. Em agosto, a Justiça
Eleitoral rejeitou os embargos e manteve a sentença. O Ministério Público,
agora, reforça: os recursos não merecem provimento, pois a gravidade do abuso
está demonstrada nos aspectos qualitativo — a estrutura orquestrada de
difamação — e quantitativo — a repercussão no pleito. Que um prefeito tenha usado
sua posição para eleger o próprio subordinado com base em mentiras fabricadas é
um ataque direto à normalidade e à legitimidade do voto.
E é aqui que a história ganha contornos ainda mais
perturbadores. Enquanto responde por ter comandado esse esquema, Fernando
Jordão, filiado ao MDB, concorre nas eleições deste ano a uma vaga de deputado
federal — o mesmo cargo que já ocupou entre 2011 e 2019. O eleitor que o
encontrará na urna precisará saber que, segundo a Justiça Eleitoral de primeira
instância, o candidato foi o arquiteto de uma operação para vencer pela
destruição do adversário, não pelo voto. A tentativa de transformar inelegibilidade
em trampolim é, por si só, um escárnio com o eleitorado de Angra dos Reis.
Caberá ao TRE-RJ dar a palavra final sobre a cassação e a
inelegibilidade, em decisão ainda sujeita a recurso no TSE. O que os autos já
disseram, porém, não se apaga: por trás da disputa eleitoral de 2024 havia um
plano frio, financiado e articulado a partir do topo da prefeitura para manchar
a imagem de um rival. Resta saber se a Justiça Eleitoral — e o eleitor — terão
a memória e a firmeza que o caso exige.