Pesquisadores do Laboratório de Mamíferos Aquáticos e Bioindicadores (Maqua), da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), publicaram estudos que trazem uma nova e crucial perspectiva para a conservação da toninha (Pontoporia blainvillei), o menor golfinho encontrado no Brasil e o cetáceo mais ameaçado de extinção do Atlântico Sul Ocidental. As descobertas, focadas na Baía da Ilha Grande, na Costa Verde do Rio de Janeiro, desmistificam a ideia de que a região seria um "hiato" na ocorrência da espécie, revelando sua presença constante e até mesmo padrões de comunicação sofisticados.
Até então, a Baía da Ilha Grande era considerada uma lacuna na distribuição da toninha, que se estende da Argentina ao Espírito Santo. No entanto, um detalhado estudo liderado pelo professor Alexandre de Freitas Azevedo, coordenador do Maqua/Uerj, acompanhou o comportamento desses golfinhos entre janeiro de 2018 e outubro de 2025. Os resultados, publicados em maio de 2026 na prestigiada revista Marine Mammal Science, são categóricos: as toninhas residem na Baía da Ilha Grande durante todo o ano, não estando apenas de passagem.
"O trabalho também mostra uma ampla distribuição da espécie pela região e a identificação de áreas preferenciais próximo a ilhas e a áreas de lajes. Elas permaneciam nos mesmos pontos e foram detectadas pela manhã e à noite", informou Azevedo, destacando a complexidade da ocupação territorial do animal na baía. Para chegar a essas conclusões, a equipe utilizou uma metodologia inovadora que combinou saídas de campo com o monitoramento acústico passivo (PAM), empregando hidrofones e gravadores para captar os sons do ambiente aquático.
Além da ocorrência, outro estudo científico, parte do pós-doutorado da pesquisadora Lis Bittencourt Vilas Boas, trouxe informações inéditas sobre os cliques de ecolocalização emitidos pelas toninhas. Publicado na revista Frontiers In Marine Science, o trabalho identificou dez tipos diferentes de padrões de emissão desses sinais acústicos, sugerindo que os cliques podem ser uma forma de comunicação entre os indivíduos.
"Conseguimos identificar dez tipos diferentes de padrões, o que demonstra que os sinais estavam sendo repetidos. Essas informações indicam que a toninha pode utilizar padrões de cliques para se comunicar", explicou Lis Bittencourt, ressaltando a importância do avanço tecnológico em gravação, que hoje permite captar frequências muito mais altas, aprimorando a capacidade de monitoramento.
A compreensão do comportamento acústico é vista como essencial para aprimorar as estratégias de preservação. Vivendo em uma faixa próxima à costa, as toninhas, também conhecidas como franciscanas, estão altamente vulneráveis aos impactos das atividades humanas. Os principais riscos incluem captura acidental em redes de pesca, ingestão de lixo marinho e poluição química e sonora causada por embarcações.
Para conscientizar a sociedade sobre a urgência de medidas de proteção para esta espécie classificada como criticamente ameaçada, o Dia Internacional da Toninha é celebrado anualmente em 1º de outubro. O Maqua/Uerj também mantém o Museu Virtual das Toninhas, uma iniciativa vital para divulgar informações sobre este cetáceo e engajar o público na sua conservação. As novas descobertas na Baía da Ilha Grande representam um passo significativo para garantir o futuro deste pequeno e vital habitante de nossos mares.