O cenário político do Rio de Janeiro após as Eleições de 2026 ainda guarda surpresas. A composição da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e da bancada fluminense na Câmara dos Deputados pode sofrer alterações significativas, dependendo de decisões da Justiça Eleitoral. Votos de candidatos que tiveram seus registros indeferidos, mas que aguardam julgamento de recursos em instâncias superiores, permanecem "sub judice" e podem mudar o jogo.
A validação desses votos não é um processo simples de substituição. Devido ao complexo sistema proporcional que elege deputados estaduais e federais, a inclusão de votos previamente anulados exigiria uma nova totalização. Isso implica em um recálculo detalhado dos quocientes eleitorais, das vagas conquistadas por partidos e federações, e da distribuição das chamadas "sobras" – um processo que pode redefinir completamente os eleitos e a lista de suplentes.
Na Alerj, a situação é particularmente delicada. Pelo menos cinco candidatos com registros indeferidos obtiveram votações individuais superiores à de Carlos Russo (DC), que atualmente figura como o deputado estadual eleito com a menor votação, somando 27.447 votos. São eles:
- João Drumond (PRD/Renovação Solidária) — 55.759 votos
- Diego Alba (PSDB/Cidadania) — 48.547 votos
- Renato Machado (PT/PCdoB/PV) — 48.300 votos
- Val Ceasa (PRD/Renovação Solidária) — 47.080 votos
- Paulo Melo (União Progressista) — 33.546 votos
O caso da Federação Renovação Solidária (PRD e Solidariedade) ilustra bem a complexidade. A federação conquistou três cadeiras na Alerj, ocupadas por Munir Neto (52.808 votos), Soldado Tobias (37.969 votos) e Arthur Monteiro (35.844 votos). João Drumond, com 55.759 votos, superou todos eles. Val Ceasa, com 47.080 votos, obteve mais votos que Soldado Tobias e Arthur Monteiro. Se seus recursos forem acolhidos, a Justiça Eleitoral terá de refazer a distribuição de vagas, impactando a ordem interna da federação e, potencialmente, o número de cadeiras do grupo.
O registro de João Felipe Drumond Espíndola, conhecido como João Drumond, foi indeferido pelo Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ) em 11 de setembro. A decisão, por 5 votos a 2, considerou elementos apresentados pelo Ministério Público Eleitoral (MPE) que apontavam vínculos do candidato, neto de Luizinho Drumond (figura ligada ao jogo do bicho), com a escola de samba Imperatriz Leopoldinense e suposta utilização de sua estrutura para projeção política. A defesa, por sua vez, contesta, alegando que o candidato foi responsabilizado por condutas de terceiros. A decisão ainda aguarda análise do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Val Ceasa (PRD) também teve seu registro de candidatura indeferido por unanimidade pelo TRE-RJ em 1º de setembro. Ele é alvo de investigações e é suspeito de ter ligações com o Terceiro Comando Puro (TCP), uma das principais facções criminosas do estado. A decisão do TRE-RJ determinou o envio de informações à Procuradoria Regional Eleitoral para apuração de eventual responsabilidade do PRD na apresentação da candidatura, sem, contudo, configurar responsabilização automática da legenda.
Outros nomes relevantes, como Diego Alba (Federação PSDB/Cidadania) e Renato Machado (Federação Brasil da Esperança), também tiveram seus registros indeferidos por unanimidade pelo TRE-RJ. Em ambos os casos, a Corte considerou indícios de vínculos com organizações criminosas, citando o artigo 17, parágrafo 4º, da Constituição Federal, que proíbe a utilização de organizações paramilitares no processo político. Diego Alba, por exemplo, teve uma condenação por quadrilha armada mencionada, e Renato Machado, supostos vínculos com o Terceiro Comando.
O ex-presidente da Alerj, Paulo Melo (União Progressista), que recebeu 33.546 votos, também teve seu registro indeferido pelo TRE-RJ, sob fundamentos semelhantes de ligação com organizações criminosas ou estruturas paramilitares, aguardando recurso.
Na disputa pela Câmara dos Deputados, o cenário também pode mudar com o caso de Ricardo Abrão (PSDB). Com 63.730 votos, Abrão superou Talita Galhardo (PSDB), que obteve 46.780 votos e está entre os quatro deputados federais eleitos pela Federação PSDB/Cidadania no Rio. O TRE-RJ indeferiu por unanimidade seu registro, após a Procuradoria Regional Eleitoral apontar documentos que o ligariam a um esquema clandestino de compra de votos em Nilópolis, nas eleições municipais de 2024, envolvendo o "QG 40". A defesa do deputado pode recorrer ao TSE.
Em suma, a existência de candidatos "sub judice" é um fator crucial nas eleições proporcionais. Se os votos desses candidatos forem validados, a Justiça Eleitoral terá de refazer a totalização, o que pode alterar a votação total dos partidos e federações, o quociente partidário, a distribuição das sobras, o número de cadeiras de cada legenda ou federação, a relação de candidatos eleitos e a lista de suplentes.
Embora a apuração inicial das urnas tenha delineado uma composição para a Alerj e a bancada fluminense na Câmara, o resultado final ainda depende diretamente das complexas decisões da Justiça Eleitoral. No Rio, as votações de João Drumond, Diego Alba, Renato Machado, Val Ceasa, Paulo Melo e Ricardo Abrão são as que, neste momento, detêm o potencial de gerar as mudanças mais impactantes na configuração das futuras bancadas legislativas.