Alunos do curso de Medicina da Estácio de Sá relatam humilhações, xingamentos e incentivo à violação de sigilo de pacientes; caso chega ao Ministério Público com gravações de aulas
Uma denúncia apresentada ao Ministério Público de Angra dos Reis, na última sexta-feira (9), acusa uma docente, preceptora da disciplina de Clínica Cirúrgica do curso do Instituto de Educação Médica (Idomed), na Universidade Estácio de Sá, em Jacuecanga, de assédio moral contra estudantes, incitação à prática de crimes e má conduta ético-profissional. A representação foi protocolada pela irmã de uma das alunas, e vem acompanhada de gravações de áudio das aulas, com transcrição detalhada e marcação de horários.
Segundo o documento, as condutas apontadas incluem xingamentos dirigidos a alunos, ameaças verbais, deboche com pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) e orientação para que estudantes fotografem prontuários e lesões de pacientes em celulares pessoais — prática que a própria docente, nas gravações, admite ser proibida. A denúncia cita trechos como "se fosse meu filho, tu apanhava" e "eu botava fogo no hospital com todo mundo dentro", além de afirmações de que preceptores atribuem notas "olhando pra carinha" dos alunos.
O ponto mais grave da representação é o relato de dano à saúde mental: a família afirma que a estudante tentou contra a própria vida mediante ingestão excessiva de medicamentos, tendo sido impedida pela intervenção imediata de parentes. O documento sustenta que o episódio decorre do ambiente acadêmico hostil descrito nas gravações e pede acompanhamento profissional para a aluna.
A denúncia enquadra as condutas em artigos do Código Penal, como injúria e incitação ao crime, na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e em dispositivos do Código de Ética Médica. Entre os pedidos estão a abertura de inquérito civil, o afastamento cautelar da professora das atividades com a turma e o encaminhamento do caso ao Conselho Regional de Medicina (CRM-RJ) e à ouvidoria da instituição.
A representação também menciona que outros discentes teriam registros de episódios semelhantes, o que, segundo a denunciante, reforçaria o caráter sistemático das condutas. Além do assédio moral, o documento aponta a existência de denúncias envolvendo assédio sexual e até mesmo o uso de drogas no ambiente acadêmico, o que amplia o alcance da apuração solicitada ao Ministério Público.
O caso tramita na Promotoria de Tutela Coletiva e Direitos Humanos da comarca.
Procurada por nossa reportagem a universidade se manifestou através de nota. Afimrou que até o momento não tinha conhecimento das reclamações, mas adiantou que não tolera prátricas que contrariem os pricípios da instituição e garantiu que irá apurar os fatos. Segue a nota na íntegra:
"A instituição informa que, até o momento, não identificou reclamações sobre o caso nem foi notificada pelo Ministério Público. A instituição não tolera práticas que contrariem seus princípios, valores e normas internas e reafirma seu compromisso com o respeito às pessoas, a responsabilidade e a formação humanística. A instituição está comprometida com a apuração de eventuais irregularidades e adotará as medidas cabíveis sempre que necessário."