O estaleiro Seatrium, antigo BrasFELS, de Angra dos Reis
(RJ), assinou em 30 de julho de 2025 acordo de leniência de R$ 728,3 milhões com
a Advocacia-Geral da União (AGU) e a Controladoria-Geral da União (CGU) para
encerrar as investigações da Operação Lava Jato. O caso envolve o pagamento de
propinas a políticos e dirigentes da Petrobras entre 2007 e 2014, período que
cobre o segundo mandato de Lula e o primeiro de Dilma Rousseff. O roteiro do
esquema foi revelado na delação premiada do lobista Zwi Skornicki, que
descreveu em detalhes os repasses ao caixa eleitoral do PT.
O acordo foi firmado com a Seatrium Limited, a Jurong
Shipyard Pte. Ltd. e o Estaleiro Jurong Aracruz, e a negociação foi coordenada
com o Ministério Público Federal e a Procuradoria-Geral de Singapura. O fio que
puxou toda a trama foi a delação de Skornicki, engenheiro polaco-brasileiro que
atuava como lobista da Keppel FELS no Brasil — braço da Keppel Offshore & Marine
que controlava o BrasFELS e que, ao se fundir com a Sembcorp Marine em 2023,
deu origem à Seatrium. Preso em fevereiro de 2016 na 23ª fase da Lava Jato, ao
lado do marqueteiro João Santana, ele confessou ao juiz Sérgio Moro, em julho
daquele ano, como funcionava o caixa 2 das campanhas petistas.
Segundo o delator, o esquema cobrava "pedágio" em
cada contrato. Nas plataformas P-51 e P-52, a propina ficou entre 0,6% e 0,7%
do valor das obras — cerca de US$ 9 milhões. Nos contratos das P-56 e P-58, o
intermediário era o ex-gerente da Petrobras Pedro Barusco, que fixou a comissão
em 1%, sendo metade para o grupo dele e metade para o PT. Para o contrato de
seis navios-sonda com a Sete Brasil, a propina exigida chegou a 1,2% —
Skornicki negociou 0,9%, mais 0,1% "por fora" para Barusco. Até as
doações eleitorais legalmente registradas ao PT eram, na prática, propina
disfarçada, conforme organização do então presidente da Technip, Frédéric
Delormel.
O destino do dinheiro escancara o vínculo com o partido do
governo. Skornicki relatou ter pago US$ 4,5 milhões depositados em conta
secreta na Suíça de João Santana e Mônica Moura, usados como caixa 2 de
campanhas do PT — Santana foi o marqueteiro de Lula em 2006 e de Dilma em 2010
e 2014. O lobista foi apresentado ao ex-tesoureiro petista João Vaccari Neto
pelo próprio Barusco, e os repasses ao partido saíam de contas no exterior para
pessoas indicadas por Vaccari. Skornicki ainda confessou ter pago propina ao
deputado Luiz Sérgio (PT), relator da CPI da Petrobras, para não ser convocado
a depor em 2015.
As condenações confirmaram as palavras do delator. No
processo dos navios-sondas, encerrado em fevereiro de 2020, Vaccari Neto foi
condenado a 7 anos, 6 meses e 20 dias de prisão, e o ex-diretor da Petrobras
Renato Duque a 6 anos, 6 meses e 10 dias. Guilherme Esteves de Jesus, operador
do estaleiro Jurong no esquema, recebeu 19 anos e 4 meses. Do lado das
empresas, o ex-presidente da subsidiária brasileira da Sembcorp Marine, Martin
Cheah Kok Choon, foi indiciado por lavagem de dinheiro e corrupção. O próprio
Skornicki foi condenado em fevereiro de 2017 a 15 anos, 6 meses e 20 dias de
reclusão por corrupção ativa, organização criminosa e lavagem de dinheiro,
obrigado a devolver US$ 23,8 milhões mantidos em offshores e a entregar 48
obras de arte.
O caso se soma à lista de escândalos que marcaram os anos do
PT no poder — do mensalão à Lava Jato. A Sete Brasil foi criada em 2010, sob
gestão petista, para encomendar 28 sondas de US$ 23 bilhões, e virou, nas
palavras do então procurador Deltan Dallagnol, uma "licitação de cartas
marcadas". Bilhões que deveriam virar empregos e desenvolvimento para
regiões como a Costa Verde fluminense acabaram desviados para campanhas,
marqueteiros e tesoureiros de partido.
Além dos R$ 728,3 milhões acordados no Brasil, a Seatrium firmou com as autoridades de Singapura um acordo de persecução penal suspensa (DPA) com multa total de US$ 110 milhões — descontados os US$ 53 milhões repassados às autoridades brasileiras, o pagamento líquido a Singapura ficou em US$ 57 milhões. A Justiça de Singapura homologou o acordo em abril de 2026, o primeiro DPA corporativo da história do país. Ainda há um capítulo em aberto: em agosto de 2025, a Keppel iniciou arbitragem contra a Seatrium reivindicando S$ 68,4 milhões (cerca de US$ 53,3 milhões), valor que a empresa contesta. O caso segue pendente na arbitragem, enquanto a delação de Skornicki permanece como o registro mais detalhado de como a máquina pública foi usada em proveito privado.