O artesanato caiçara, indígena e quilombola de Paraty (RJ) brilhou intensamente no SPFW Academy, consolidando-se não apenas como uma expressão estética, mas como um poderoso motor de cultura e transformação social. Em um painel emocionante, a modelo e empresária Thayná Soares, fundadora da marca Thayná Caiçara, reuniu 17 bordadeiras da região, defendendo a urgência de valorizar, cocriar e implementar políticas públicas robustas para o artesanato brasileiro.

O evento, realizado no último sábado, dia 17, no painel “A Marca, a Moda e a Cultura”, foi um marco. Mediado por Dudu Bertholini e contando com a participação da diretora criativa Paula Kim e do designer Caio Araújo, o encontro proporcionou às bordadeiras de Paraty uma experiência inédita: vivenciar, pela primeira vez, os bastidores de uma semana de moda de prestígio. A emoção era palpável entre as artesãs, que viram seu trabalho ganhar o palco principal.

Thayná Soares enfatizou que o valor do bordado transcende a beleza visual, carregando consigo a história, as memórias e a identidade de quem o produz. Ela clamou por visibilidade, autoria direta e retorno financeiro justo para os artesãos e comunidades tradicionais que alimentam a moda nacional. "Não basta levar um bordado para fora e dizer que é de uma artesã sem dar o nome e a origem exata. O Nordeste não se define em uma palavra, Paraty tem seus saberes e nomes próprios. Eu quero saber o contato, a rede de cada uma. O que faz a diferença no mundo atual é a história e a transparência de saber quem está por trás de cada peça", destacou.

A empresária também alertou contra a romantização do bordado, ressaltando a necessidade de valorização real através de parcerias com marcas para mitigar a sazonalidade e garantir renda contínua. Além disso, cobrou um apoio governamental e incentivos estruturados. "A indústria da moda movimenta bilhões no Brasil. Precisamos da Secretaria de Cultura e de políticas públicas nacionais que protejam nossos códigos culturais, incentivem esses grupos e reconheçam a moda verdadeiramente como cultura. Precisamos de marcas parceiras que nos deem base para capacitar e apoiar cada vez mais pessoas no município", concluiu.

Representando as bordadeiras, Laiz Elesbão Barbosa, mãe, ilustradora e professora, compartilhou sua perspectiva. Ela reforçou como o coletivo de Paraty se tornou um espaço de troca, criação e fortalecimento do fazer manual. “A gente passa para o tecido e para o papel, imagens que são muito íntimas no nosso cotidiano. É um passeio, é a nossa cultura, biodiversidade. E quando chega alguém com um olhar aprimorado e fala que isso tem valor. A gente não tinha esse olhar e de repente o que eu faço também tem valor”, emocionou-se Laiz, que também destacou a transformação profissional gerada pelo incentivo e pela coletividade.

A marca Thayná Caiçara, fundada há seis anos pela própria Thayná Soares, tem sido um pilar nesse movimento. Focada na valorização da cultura tradicional de Paraty, a marca leva o bordado artesanal brasileiro para o mundo, com peças exclusivas vendidas, inclusive, no icônico hotel Du Cap-Eden-Roc, no sul da França. Seu projeto de capacitação em Paraty ensina técnicas como a pintura de agulha, que pode levar até 23 horas para ser concluída, promovendo autonomia econômica e empoderamento feminino.

Em parceria com a Casa da Cultura de Paraty, o projeto já formou 40 bordadeiras no ano passado, que se tornaram agentes multiplicadoras. Para este ano, a demanda explodiu, com uma fila de espera de 171 mulheres. A seleção prioriza o vínculo com a cidade, a faixa etária e dados socioeconômicos, alcançando majoritariamente mulheres adultas, muitas com renda familiar de até três salários-mínimos, evidenciando o profundo impacto social da iniciativa. Diante da alta procura, dois novos cursos estão previstos para serem lançados ainda este ano, prometendo ampliar ainda mais o alcance dessa valiosa iniciativa.