O Rio de Janeiro se encontra em um cenário paradoxal de segurança pública, conforme revelam os dados mais recentes do Atlas da Violência, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgados nesta terça-feira. O estado figura como o terceiro no Brasil com o maior número absoluto de jovens mortos de forma violenta. Contudo, em uma notícia que traz um alento, o Rio de Janeiro também registrou a maior queda absoluta no número total de homicídios entre os anos de 2023 e 2024.

A análise do Atlas da Violência posiciona o Rio de Janeiro atrás apenas da Bahia e de Pernambuco no trágico ranking de mortes violentas de jovens, abrangendo a faixa etária de 15 a 29 anos. Em 2024, um alarmante total de 1.714 jovens tiveram suas vidas brutalmente interrompidas no estado. Quando a métrica é a taxa por 100 mil habitantes, o Rio ocupa a segunda posição na Região Sudeste, evidenciando a gravidade da situação juvenil.

Apesar desse dado preocupante, o estado fluminense se destacou positivamente ao apresentar a maior redução do país no número total de homicídios no período de 2023 a 2024. Essa queda, embora significativa, não foi suficiente para colocar o Rio abaixo da média nacional de homicídios, que em 2024 foi de 20,1 mortes por 100 mil habitantes, enquanto o estado registrou 20,4.

Daniel Cerqueira, um dos autores do Atlas da Violência, comentou sobre o perfil das vítimas: “Nesse enredo da violência, o jovem é o ator principal, tanto como vítima quanto como autor. Ele vive um período de transição, de afirmação na vida.” Cerqueira também destacou uma mudança no padrão criminal: “Há uma tendência de queda dos homicídios no Rio desde 2003. Ao mesmo tempo, ocorreu uma mudança no modus operandi do crime. Antes, muitos conflitos eram resolvidos com mortes; hoje, há uma expansão do controle territorial armado e de outros crimes, como a extorsão.”

Por trás dos números, histórias de dor e perda se acumulam. É o caso de Luís Felipe, professor de Educação Física de 27 anos, que teve sua vida ceifada durante um assalto no Aterro do Flamengo. Sua mãe, Antônia Divânia Araújo Alves, auxiliar de professora, expressa a dimensão da tragédia familiar: “Meu filho foi maravilhoso: filho, neto, sobrinho, primo, amigo. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. E, até hoje, nada voltou ao normal depois que ele partiu.”

Antônia ainda recorda com dificuldade o dia da perda: “Ele saiu para a casa da namorada e, de lá, foram para um luau no Aterro. Às 18h20, um amigo dele me ligou e contou o que tinha acontecido.” A dor de Antônia reflete a de muitas famílias que buscam respostas e justiça.

O Atlas da Violência também lança luz sobre os chamados homicídios ocultos – mortes violentas que, por diversos motivos, não são classificadas oficialmente como assassinatos, mas se encaixam nessa categoria. No Rio de Janeiro, foram registrados 682 desses casos em 2024. Daniel Cerqueira aponta uma falha estrutural: “Existem duas bases de dados sobre homicídios no Brasil: os registros da polícia e os da saúde. Muitas vezes, não há compartilhamento de informações entre esses sistemas, o que dificulta a elucidação dos casos. Assim, surgem os registros de mortes violentas com causa indeterminada. Resolver isso é possível, mas depende de vontade política.”

Para as famílias enlutadas, a falta de clareza e a burocracia transformam a dor em um sofrimento ainda maior. “Para uma mãe que perde um filho, ficar no escuro, sem saber o que aconteceu, é algo muito doloroso. Para mim, meu filho virou apenas mais um número na estatística. A gente tenta mostrar para a sociedade que está bem, mas meu coração está dilacerado”, finaliza Antônia, com a voz embargada pela dor e pela busca incansável por justiça.