A
eleição municipal de 2024 em Angra dos Reis está longe de ser um capítulo
encerrado e continua movimentando os bastidores. O Ministério Público Eleitoral (MPE) recomendou a cassação
dos diplomas do prefeito de Angra dos Reis, Cláudio Ferreti (MDB), e de seu
vice, Rubinho Metalúrgico (PP). O parecer, emitido pelo promotor Daniel Marones
de Gusmão Campos, no dia 9 de junho, fundamenta-se na acusação de que a chapa
vencedora foi beneficiada por práticas de abuso de poder político orquestradas
pelo ex-prefeito Fernando Jordão durante o pleito de 2024 e pela marqueteira da
Prefeitura, Gabriela Athias.
A investigação, que contou com laudos
da Polícia Federal e análise de mensagens de WhatsApp, aponta que a estrutura
da prefeitura foi utilizada para financiar uma "milícia digital".
Segundo o MPE, ex-funcionários de Renato Araújo teriam sido pagos para gravar
vídeos contra ele, o principal adversário político de Ferreti. Além da perda do
mandato do atual prefeito, o Ministério Público solicita que Fernando Jordão
seja declarado inelegível por um período de oito anos.
O documento descreve que o
ex-mandatário não apenas acompanhava a produção do material difamatório, como
também o utilizava publicamente em carreatas e grupos de mensagens para
promover seu sucessor político.
Entenda o caso
Considerado o pleito mais acirrado da história do
município no Sul do Rio de Janeiro, o processo eleitoral foi marcado por
ataques em grupos de WhatsApp, divulgação de vídeos suspeitos e intensa troca
de acusações entre adversários.
Na época, Cláudio Ferreti (MDB) venceu Renato Araújo (PL) por apenas 1.282 votos, e a Polícia Federal passou a investigar se a vitória foi influenciada por uma campanha organizada de ataques e conteúdos difamatórios contra Renato durante o período eleitoral.

À Polícia Federal, o advogado Valmir Sérvolo, que prestou depoimento na condição de testemunha ligada a Renato Araújo, afirmou que Fabrício relatou a existência de supostas pessoas ligadas à “campanha do governo” oferecendo dinheiro para produzir vídeos contra Renato ainda durante a pré-campanha. Segundo o relato, os ataques continuariam caso não houvesse pagamento. O valor mencionado teria começado em R$ 100 mil e depois caído para R$ 50 mil. Durante a operação, agentes apreenderam celulares e uma folha manuscrita com a anotação “100.000”.
O depoimento de Fabrício também foi importante para a investigação chegar a outro nome, Gabriela Athias. Segundo ele, a jornalista, sócia da empresa Somma Serviços de Comunicação, teria participado diretamente da produção dos vídeos. De acordo com o relato, ela seria responsável por procurar ex-funcionários, organizar entrevistas, coordenar perguntas, realizar pagamentos, além de editar e divulgar o material nas redes sociais.

A Somma Serviços de Comunicação é responsável pela assessoria de comunicação da Prefeitura de Angra dos Reis desde 2022, após vencer um contrato milionário para prestação de serviços de comunicação institucional. Até os dias atuais, já recebeu R$ 13.922.736,74 (Fonte: Portal da Transparência). Seu contrato foi renovado até 14 de fevereiro de 2027.
Na época da eleição, a prefeitura era comandada por
Fernando Jordão, principal apoiador político de Cláudio Ferreti, adversário de
Renato Araújo na disputa pela prefeitura.
A relação entre os personagens citados no inquérito passou a ser um dos pontos observados pela investigação da Polícia Federal, que em análise pericial de áudios e prints extraídos do celular de Fabrício revelou negociações explícitas para a produção de conteúdos difamatórios contra Renato, a mando do ex-prefeito Fernando Jordão e de seu irmão, o empresário Luiz Antônio Jordão. Rita de Cássia Fernandes de Carvalho, secretária particular de Luiz Antônio, informou a Fabrício que Paolla Diniz e Gabriela Athias seriam as encarregadas da missão.
O empresário Luiz Antônio Jordão, irmão do ex-prefeito Fernando Jordão atuava através de Rita de Cássia Fernandes de Carvalho, sua secretária particular O inquérito
Nos autos, a PF descreve uma operação de difamação que
teria começado ainda durante a pré-campanha. Em 23 de agosto de 2024, vídeos e
mensagens passaram a circular em grupos de WhatsApp de Angra dos Reis atacando
Renato Araújo e familiares. As mensagens misturavam acusações pessoais,
insinuações religiosas e alegações financeiras.
As peças reproduzidas no inquérito mostram frases curtas e apelativas, típicas de campanhas de destruição de reputação. “Deve pensão aos filhos”, “deu calote em metade de Angra” e “paga de cristão, mas vive em fornicação” estavam entre as mensagens compartilhadas. Parte do material utilizava até prints do sistema eleitoral para tentar conferir aparência de credibilidade às acusações.




Outro vídeo apresentava Renato como empresário inadimplente e explorava ações trabalhistas envolvendo ex-funcionários. Segundo a própria PF, os conteúdos tiveram “ampla repercussão” na cidade e circularam em diversos grupos de WhatsApp durante a campanha.
O detalhe mais sensível apareceu nos prints anexados à investigação: parte do material teria sido compartilhada por um número identificado no aplicativo como “Fernando Jordão”.




Nos autos, a PF fala na possibilidade de atuação de “Organização Criminosa ou Associação Criminosa” voltada à produção e divulgação de conteúdos ofensivos com objetivo político. Segundo o delegado, os elementos reunidos apontam para uma atuação coordenada capaz de provocar “significativo desequilíbrio na corrida eleitoral”.
Atentado na campanha aumentou clima de tensão eleitoral
O empresário Renato Araújo (PL) também atribuiu a
criminosos ligados a uma facção do tráfico de drogas o atentado a tiros sofrido
por sua comitiva durante a campanha eleitoral.
O episódio aconteceu em 21 de setembro de 2024, durante
uma caminhada no Morro do Santo Antônio. Disparos foram efetuados em direção ao
grupo que acompanhava o candidato, provocando correria entre apoiadores. Apesar
do susto, ninguém foi baleado, havendo apenas ferimentos leves causados pela
fuga tumultuada.
Nos bastidores políticos da época, Renato também
relatou suspeitas de que o atentado pudesse ter sido articulado por adversários
políticos, hipótese que passou a circular entre aliados durante o período
eleitoral, o que também é investigado pela PF que tenta identificar de quem
teria partido tal ordem.
“Devolve os duzentos”
As investigações também apuram a relação entre Fabrício
e Renan Lima, presidente da associação comunitária Amigos da Comunidade e
candidato a vereador em Angra dos Reis nas eleições de 2024 pelo Partido
Renovação Democrática (PRD), quando recebeu 2.120 votos.
Conversas telefônicas obtidas pela Polícia Federal mostram diálogos entre os dois sobre uma transferência de R$ 1.200 para a companheira de Tatinha — apontado como traficante do Morro da Caixa D’Água e preso em 2024 sob acusação de comandar o tráfico na comunidade da região central da cidade.



Após Fabrício encaminhar o comprovante da
transferência, Renan — na condição de presidente da associação Amigos da
Comunidade, organização social com atuação ativa em diversos bairros e
comunidades de Angra dos Reis — afirma que o valor correto seria “mil”, e não
R$ 1.200. Em seguida, solicita a devolução dos R$ 200 enviados a mais. Na
sequência, o então candidato encaminha áudios que, segundo a investigação,
seriam de Tatinha.
Para a PF, há fortes indícios de que os dois tratavam
justamente do envio de dinheiro para a companheira do traficante. A
transferência, segundo os investigadores, teria sido realizada por Thiago
Custódio da Silva, apontado como responsável por operacionalizar o pagamento
para a mulher de Tatinha.